A crise para os muito ricos terminou <br>– Se é que alguma vez existiu

Jorge Pires (Membro da Comissão Política)

Nas úl­timas se­manas foi de­sen­ca­deada, em todo o es­paço co­mu­ni­tário, uma gi­gan­tesca ope­ração de pro­pa­ganda numa ten­ta­tiva de cre­di­bi­li­zação do sector fi­nan­ceiro, com par­ti­cular des­taque para a banca, da qual se des­taca a en­ce­nação feita em torno da di­vul­gação dos re­sul­tados dos testes de re­sis­tência efec­tu­ados a 91 bancos eu­ro­peus, como se se tra­tasse do fim da his­tória da crise do sector fi­nan­ceiro.

Os muito ricos não de­mo­raram mais de um ano para re­cu­perar as suas for­tunas

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Também em Por­tugal, o mi­nistro das Fi­nanças e o go­ver­nador do Banco Cen­tral apres­saram-se a di­vulgar os re­sul­tados ob­tidos pelos quatro mai­ores bancos na­ci­o­nais ao mesmo tempo que, em tom so­lene, de­cre­taram o fim das pre­o­cu­pa­ções com a banca na­ci­onal, porque, dis­seram eles, se a crise atingir di­men­sões mai­ores os por­tu­gueses podem dormir des­can­sados porque o sector está em con­di­ções de re­sistir e, com a sua ro­bustez, con­tri­buir para ajudar as em­presas e as fa­mí­lias a ul­tra­passar as di­fi­cul­dades a que vão estar su­jeitas. Nada mais falso!

Não fosse a si­tu­ação séria de­mais para brin­carmos com ela e di­ríamos que es­tá­vamos pe­rante um passe de má­gica. Mas sobre esta ten­ta­tiva, pelos vistos não con­se­guida, de cre­di­bi­lizar o sector ban­cário na Eu­ropa e também em Por­tugal, há duas per­guntas que têm sido feitas e até agora não ob­ti­veram res­posta:

  • a quem é que se des­tina esta ope­ração de bran­que­a­mento da banca?

  • o porquê de, logo ime­di­a­ta­mente, a se­guir à di­vul­gação dos re­sul­tados em toda a Eu­ropa, as taxas Eu­ribor terem con­ti­nuado a subir, numa clara ma­ni­fes­tação de falta de con­fi­ança nos mer­cados fi­nan­ceiros?

Como é evi­dente, se o es­tudo se des­ti­nava aos cha­mados mer­cados fi­nan­ceiros, o facto de os mega-bancos, onde a banca na­ci­onal se vai fi­nan­ciar, con­ti­nu­arem a fazer re­flectir a sua na­tu­reza es­pe­cu­la­tiva na fi­xação de taxas de juro cada vez mais ele­vadas, mos­trando assim que co­nhecem muito bem a si­tu­ação real da banca na­ci­onal e não vão em tretas, a aposta fa­lhou re­don­da­mente. Os es­pe­cu­la­dores até podem animar o ca­sino bol­sista, mas os pro­blemas e as bombas ao re­tar­dador mantêm-se no sis­tema fi­nan­ceiro e na eco­nomia em geral.

Quanto ao ob­jec­tivo de deixar os por­tu­gueses mais des­can­sados e con­fi­antes no fu­turo, o facto de verem o seu ren­di­mento dis­po­nível cada vez mais hi­po­te­cado, os spreads e as co­mis­sões ban­cá­rias a su­birem ex­po­nen­ci­al­mente, pode dizer-se que o efeito é o con­trário ao pre­ten­dido. Quem acre­dita na bon­dade de um sector que, num mo­mento de crise eco­nó­mica e so­cial pro­funda, vê os seus lu­cros au­men­tarem em média à volta dos 12 por cento acima dos re­sul­tados ob­tidos no se­mestre ho­mó­logo de 2009 e que, si­mul­ta­ne­a­mente, pra­ticam uma po­lí­tica de cré­dito às micro, pe­quenas e mé­dias em­presas e às fa­mí­lias cada vez mais res­tri­tiva e agres­siva?

Fa­cil­mente se per­cebe, dado o se­gredo de que foram ro­de­ados os cri­té­rios que ser­viram de base aos testes e as fis­suras que a dis­cussão abriu, o que re­flecte as pro­fundas di­ver­gên­cias de in­te­resses exa­cer­bados entre os países da União, que os re­sul­tados fa­bri­cados para as cir­cuns­tân­cias, apenas dão uma fa­chada de des­canso para os que de­ci­diram.


Os ricos estão mais ricos


Tal como o PCP de­nun­ciou, «Não deixa de ser sin­to­má­tico que, num mo­mento em que os cha­mados testes de stress ban­cário con­cluem pela so­lidez das ins­ti­tui­ções fi­nan­ceiras, in­de­pen­den­te­mente do papel que esses testes as­sumem no pro­cesso de ra­pina de re­cursos pú­blicos, a banca man­tenha uma ati­tude mar­cada pela usura e a for­çada ex­torsão dos ren­di­mentos fa­mi­li­ares e das pe­quenas e mé­dias em­presas por via do preço do cré­dito e das co­mis­sões co­bradas. Co­mis­sões estas com um au­mento cres­cente no con­junto das re­ceitas das ins­ti­tui­ções fi­nan­ceiras, que se ci­fram em mais de 4800 mi­lhões de euros em 2008 e 2009».

A grande questão, não ad­mi­tida pelos go­vernos da União Eu­ro­peia, mas cada vez mais evi­dente, é a pro­cura de pre­servar a qual­quer preço o sis­tema fi­nan­ceiro e ga­rantir aos mais ricos a acu­mu­lação de mais ri­queza.

O Re­la­tório da Ri­queza Mun­dial pu­bli­cado no pas­sado mês de Junho por duas em­presas de con­sul­ta­doria que co­nhecem muito bem esta gente, tes­te­munha o facto de 0,15 por cento da po­pu­lação mun­dial, dos quais 53,5 por cento estão nos Es­tados Unidos, Japão e Ale­manha, a tríade dos mais ricos, ter visto a sua for­tuna crescer de 32 800 bi­liões de dó­lares em 2008 para 39 000 bi­liões em 2009.

Daqui também se pode con­cluir que os mi­lhares de mi­lhões de euros que os es­tados eu­ro­peus, in­cluindo Por­tugal, de­vo­raram para «salvar os bancos», em grande parte ser­viram para salvar a ri­queza dos muito ricos que no es­sen­cial con­trolam a banca e os fundos de todos os tipos.

Bem se pode dizer que o mundo é in­cri­vel­mente rico e os muito ricos não de­mo­raram mais de um ano para re­cu­perar as suas for­tunas ex­tra­va­gantes blo­que­adas num ins­tante, en­quanto que a po­breza con­tinua a sua pro­gressão mun­dial.



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