A crise para os muito ricos terminou <br>– Se é que alguma vez existiu
Nas últimas semanas foi desencadeada, em todo o espaço comunitário, uma gigantesca operação de propaganda numa tentativa de credibilização do sector financeiro, com particular destaque para a banca, da qual se destaca a encenação feita em torno da divulgação dos resultados dos testes de resistência efectuados a 91 bancos europeus, como se se tratasse do fim da história da crise do sector financeiro.
Os muito ricos não demoraram mais de um ano para recuperar as suas fortunas
Também em Portugal, o ministro das Finanças e o governador do Banco Central apressaram-se a divulgar os resultados obtidos pelos quatro maiores bancos nacionais ao mesmo tempo que, em tom solene, decretaram o fim das preocupações com a banca nacional, porque, disseram eles, se a crise atingir dimensões maiores os portugueses podem dormir descansados porque o sector está em condições de resistir e, com a sua robustez, contribuir para ajudar as empresas e as famílias a ultrapassar as dificuldades a que vão estar sujeitas. Nada mais falso!
Não fosse a situação séria demais para brincarmos com ela e diríamos que estávamos perante um passe de mágica. Mas sobre esta tentativa, pelos vistos não conseguida, de credibilizar o sector bancário na Europa e também em Portugal, há duas perguntas que têm sido feitas e até agora não obtiveram resposta:
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a quem é que se destina esta operação de branqueamento da banca?
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o porquê de, logo imediatamente, a seguir à divulgação dos resultados em toda a Europa, as taxas Euribor terem continuado a subir, numa clara manifestação de falta de confiança nos mercados financeiros?
Como é evidente, se o estudo se destinava aos chamados mercados financeiros, o facto de os mega-bancos, onde a banca nacional se vai financiar, continuarem a fazer reflectir a sua natureza especulativa na fixação de taxas de juro cada vez mais elevadas, mostrando assim que conhecem muito bem a situação real da banca nacional e não vão em tretas, a aposta falhou redondamente. Os especuladores até podem animar o casino bolsista, mas os problemas e as bombas ao retardador mantêm-se no sistema financeiro e na economia em geral.
Quanto ao objectivo de deixar os portugueses mais descansados e confiantes no futuro, o facto de verem o seu rendimento disponível cada vez mais hipotecado, os spreads e as comissões bancárias a subirem exponencialmente, pode dizer-se que o efeito é o contrário ao pretendido. Quem acredita na bondade de um sector que, num momento de crise económica e social profunda, vê os seus lucros aumentarem em média à volta dos 12 por cento acima dos resultados obtidos no semestre homólogo de 2009 e que, simultaneamente, praticam uma política de crédito às micro, pequenas e médias empresas e às famílias cada vez mais restritiva e agressiva?
Facilmente se percebe, dado o segredo de que foram rodeados os critérios que serviram de base aos testes e as fissuras que a discussão abriu, o que reflecte as profundas divergências de interesses exacerbados entre os países da União, que os resultados fabricados para as circunstâncias, apenas dão uma fachada de descanso para os que decidiram.
Os ricos estão mais ricos
Tal como o PCP denunciou, «Não deixa de ser sintomático que, num momento em que os chamados testes de stress bancário concluem pela solidez das instituições financeiras, independentemente do papel que esses testes assumem no processo de rapina de recursos públicos, a banca mantenha uma atitude marcada pela usura e a forçada extorsão dos rendimentos familiares e das pequenas e médias empresas por via do preço do crédito e das comissões cobradas. Comissões estas com um aumento crescente no conjunto das receitas das instituições financeiras, que se cifram em mais de 4800 milhões de euros em 2008 e 2009».
A grande questão, não admitida pelos governos da União Europeia, mas cada vez mais evidente, é a procura de preservar a qualquer preço o sistema financeiro e garantir aos mais ricos a acumulação de mais riqueza.
O Relatório da Riqueza Mundial publicado no passado mês de Junho por duas empresas de consultadoria que conhecem muito bem esta gente, testemunha o facto de 0,15 por cento da população mundial, dos quais 53,5 por cento estão nos Estados Unidos, Japão e Alemanha, a tríade dos mais ricos, ter visto a sua fortuna crescer de 32 800 biliões de dólares em 2008 para 39 000 biliões em 2009.
Daqui também se pode concluir que os milhares de milhões de euros que os estados europeus, incluindo Portugal, devoraram para «salvar os bancos», em grande parte serviram para salvar a riqueza dos muito ricos que no essencial controlam a banca e os fundos de todos os tipos.
Bem se pode dizer que o mundo é incrivelmente rico e os muito ricos não demoraram mais de um ano para recuperar as suas fortunas extravagantes bloqueadas num instante, enquanto que a pobreza continua a sua progressão mundial.